𝕿𝐇𝐄 𝕭𝐎𝐎𝐊𝐒 𝕺𝐅 𝕷𝐈𝐅𝐄.

Separadas do mundo humano pelo véu de magia simplesmente nomeado como A Barreira, as Terras Encantadas são o lar e palco de todos os personagens de contos de fadas que permeiam a mente dos homens. Rico ou pobre, grande ou pequeno, nobre ou plebeu, todos têm algum tipo de lembrança dourada que envolve ouvir histórias infantis antes de se deitar para dormir.Normalmente, essas histórias terminam com um "e viveram felizes para sempre!". As crianças fecham os olhos, repousam a cabeça no travesseiro e resvalam para um sono tranquilo — sem cogitar, nem sequer por um momento, que tudo o que ouviram pode ser muito mais real e mais sombrio do que imaginaram.Cavaleiros de armadura brilhante não eram sempre honrados. Príncipes não eram sempre bondosos e gentis. Maldições não podiam ser quebradas apenas com a força do "amor verdadeiro", e donzelas virginais não eram tão inocentes quanto pareciam.Mas tudo isso era o que tornava as histórias reais das Terras Encantadas muito mais interessantes do que as dos contos de fada mortais. E, para distinguí-las ainda mais das versões açucaradas distribuídas entre humanas aldeias campestres e cidades atulhadas, o Conselho existe: uma organização pacifista, imparcial e internacional a interpretar o papel de anfitrião em importantes reuniões que ocorrem a cada cinco anos, além de ser um importante canal diplomático para mediar disputas entre reinos distintos e evitar que determinadas situações saiam de controle.Fundado por diversos governantes ao final da Guerra dos Livros, o grande conflito que mergulhou as Terras Encantadas em um banho de sangue graças ao uso indevido e antiético de Livros da Vida, o Conselho atualmente tem sua sede no território neutro de Noridium, conhecido lugar de refúgio internacional e sede de outra instituição muito importante para a manutenção da paz nas Terras Encantadas: A Grande Biblioteca Raenis.A Grande Biblioteca, como informalmente é chamada pela população, foi criada pelos monarcas do Conselho para guardar e proteger os Livros da Vida — grimórios magicamente formados no instante do nascimento de uma pessoa, com toda a sua vida já escrita . . . e, é claro, sujeita à modificações — pertencentes aos cidadãos de todos os reinos das Terras Encantadas. Ter nas mãos o Livro da Vida de alguém é ter um poder sobrenatural. É a capacidade de escolher que rumo o destino daquela pessoa irá tomar, e a certeza de que será obedecido.Nos anos anteriores à Guerra dos Livros, estes objetos eram responsabilidade única e exclusiva de seus donos. Há relatos históricos comprovando que, em reinos onde a escravidão é — ou era — legalizada, muitos comerciantes cobravam uma taxa extra para vender os Livros da Vida de suas vítimas, humanas ou portadoras de magia, fornecendo ao escravocrata um controle ainda maior sobre seus cativos. Pessoas abastadas e pertencentes à nobreza costumavam guardá-los em cofres e outros lugares igualmente protegidos — já que, quanto maior o grau de prestígio da vítima na hierarquia social, mais seu Livro era valioso para criminosos —, porém, o povo comum não usufruía deste privilégio. Casos de roubos e furtos de Livros da Vida precariamente guardados não eram raros, desde as montanhas de Arendelle até as regiões coloridas de Oz, passando pelos castelos de Corona.Contudo, os de alto nascimento não estavam assim tão protegidos quanto pensavam estar. Em demasiado curto espaço de tempo, uma guerra incentivada pela grave acusação de roubos de Livros da Vida irrompeu entre os reinos de Gardarshólmi e Hibernia — e a escalada em seus níveis de hostilidade não tardou a envolver outras nações no conflito, que perdurou durante trinta anos. Ambos os reinos foram, infelizmente, destruídos por meios diversos no decorrer da guerra, e seus territórios são hoje em dia preservados pela Grande Biblioteca Raenis como um memorial do que aconteceu, um lembrete para que erros assim não sejam repetidos.Neste meio tempo, diversas atrocidades foram cometidas por homens cuja sabedoria não estava alinhada à ética e que não hesitaram em utilizar aqueles bens mágicos ao seu favor, seja durante batalhas, seja durante atentados terríveis, seja em atos da mais pura covardia. A crueldade de seres sencientes, naqueles tempos sombrios, era tão sem limites quanto sua imaginação. Foram dias difíceis, onde predominava a lei dos mais fortes sobre os mais fracos.Porém, a ordem se estabelece em meio ao caos, e assim aconteceu. Foi durante os anos duros da Guerra dos Livros que a semente idealista (e, muitos diriam, utópica) de um reino pacífico e seguro para os mais vulneráveis começou a germinar na cabeça de muitos. Muitas espécies e minorias que tiveram seus habitats e terras milenares tomadas, destruídas ou transformadas em campo de batalha começaram a conferenciar umas com as outras e a virar as cabeças em direção ao Norte.Afinal, ainda existia um território que não havia sido maculado pela sede de sangue dos homens, que era considerado como o berço e fonte de toda a magia das Terras Encantadas. Seu nome original se perdeu no tempo, modificado entre cada sussurro ouvido e repetido, mas os refugiados esperançosos que ali se estabeleceram decidiram como seu lar se chamaria dali em diante: Noridium.Nem tudo foi fácil, a princípio. Dezenas de espécies diferentes, com culturas, tradições e cultos distintos, se estabeleceram sob a sombra monstruosa das Grandes Montanhas para conviver de forma pacífica. A liderança de cada grupo foi sucinta: não poderia haver nenhum tipo de conflito entre raças, sob pena de exílio. Noridium deveria ser um santuário e um local seguro para qualquer um que ali buscasse refúgio e, com tantas batalhas já acontecendo do lado de fora de suas fronteiras, eles não precisavam de lutas internas. A cooperação entre raças foi essencial para a manutenção daquele território nos anos que antecederam a fundação da Grande Biblioteca.Contudo, no mundo exterior, a guerra continuava — e já completava seu trigésimo aniversário quando uma ameaça ainda maior e mais perigosa paralisou a luta entre todos os combatentes. A magia básica das Terras Encantadas estava abalada até às suas fundações graças ao mau uso dos Livros da Vida em todas aquelas décadas de conflito. Terremotos, chuvas ácidas, erupções de vulcões considerados extintos — todo o tipo de catástrofe natural, um sintoma do quão doente o mundo estava com as atrocidades cometidas em nome da ambição.Mobilizados pelo mais puro terror, monarcas que antes trocavam ameaças de morte entre si começaram a debater qual seria a solução para estabilizar novamente a magia pertencente àquela dimensão. Surgiu, então, uma ideia que poderia vir a resolver o cerne do problema, o conflito que havia causado tudo aquilo: a garantia de proteção para os Livros da Vida de todos os cidadãos das Terras Encantadas. Algo democrático, que abrangesse e incluísse a todos, e que ficasse longe da influência ou da ameaça dos principais reinos envolvidos na guerra, para evitar manipulação ou mau-uso dos destinos alheios. Os representantes do reino pacífico foram convocados para discutir a questão, e concordaram em ceder seu território… sob certas condições. Tratados deveriam ser firmados; alianças, reforçadas. Nada como aquela guerra deveria voltar a acontecer, nem agora nem nunca.As três constelações que dominam o céu nórdico — a Donzela, o Guerreiro e a Caçadora — testemunharam os juramentos e a assinatura do Tratado de Noridium, no lugar que hoje é conhecido como Praça da Fundação. Neste dia, a guerra cessou, e o mundo soltou um suspiro aliviado. Todos os esforços dos monarcas se voltaram a construir a Grande Biblioteca Raenis, que deveria armazenar e proteger os grimórios mágicos do reino, e o colossal prédio do Palácio das Penas, onde reuniões diplomáticas com intuito de manter a paz e evitar novos conflitos iriam ocorrer. A magia que pulsava no próprio solo do lugar tornou as coisas mais fáceis, e duas das mais magníficas construções que as Terras Encantadas já viram foram erguidas em questão de dias.Porém, ainda havia outro problema: a quem confiar a administração da Grande Biblioteca? Não poderia ser nenhum dos reinos envolvidos na Guerra dos Trinta Anos, por motivos óbvios, mas não havia muitas outras opções. Os refugiados que ofereceram o próprio território e a ajuda necessária para tornar aquele projeto real deixaram bem claro que não iriam se envolver mais no assunto, por questão de principios. O primeiro Grande Conselho foi convocado para tratar da questão, e foi registrado que aquela reunião durou cinco dias ininterruptos — com direito a xingamentos, ameaças, brigas, palavrões, divórcios, quebra de alianças e até mesmo uma tentativa de homicídio... —, até que o céu lhes indicasse a resposta.A aurora boreal, fenômeno frequente nos reinos do Norte, refulgia contra as estrelas. E, sendo trazido das Terras Humanas na cauda de um arco-íris, estava Ésopo, o primeiro escritor mortal a ser escolhido como Mestre das Penas, graças ao seu valor comprovado durante toda a sua vida. Como não havia participado diretamente de qualquer conflito, já que estava do outro lado d'A Barreira, não havia nenhum tipo de empecilho válido que impedisse o pobre mortal de tomar posse de seu título. Muitos, é claro, protestaram: quem era aquele sujeito presunçoso que se apresentava para escrever os próximos contos das Terras Encantadas? Porém, quando Ésopo lhes mostrou sua pena de diamantes, uma reliquia mágica de tempos imemoriais, onde homens poderiam brincar de deuses e criar novas terras e continentes com apenas uma palavra escrita, todos se calaram e reconheceram seu poder. Ele havia sido escolhido, afinal, pela própria magia criadora daquela dimensão. Não havia nenhum argumento contra isso.E Ésopo se mostrou perfeitamente capaz de executar a função sozinho. Pelo menos, por um tempo. Em momentos aleatórios e circunstâncias diversas, A Barreira voltava a abrir-se para permitir nas Terras Encantadas a entrada de outros escritores humanos notáveis, apenas os melhores dos melhores, uma elite. Hoje em dia, os que têm a honra de carregar este título pela eternidade de sua existência imortal — pois, enquanto os Livros da Vida que escrevem sejam lidos, a magia lhes dá forças para continuar — são os senhores Jacob Grimm, Wilhelm Grimm, Charles Perrault, Hans Christian Andersen, William Shakespeare, a Condessa de Segur Sophie Rostopchine… e, é claro, Ésopo, o primeiro de todos.Desde a fundação da Grande Biblioteca Raenis, graças ao trabalho e empenho dos Mestres das Penas, as Terras Encantadas vivem em paz — seus Livros das Penas, seus destinos, bem guardados e seguros. Agora, resta saber por quanto tempo isto irá durar . . .